domingo, 14 de julho de 2019

A Lua com dupla reflexão

A Lua com seus diversos tons.
Após o Sol, sem dúvidas a Lua é o astro mais notável do céu. Além disso, sempre que temos um telescópio à mão ela geralmente é a primeira na lista de alvos a serem observados. E garanto: ela nunca decepciona! Até mesmo para os observadores mais experientes, é sempre um deleite observá-la através das lentes de um telescópio. Na fotografia não é diferente, a Lua (via de regra) é quase sempre o primeiro alvo registrado no histórico de todo astrofotógrafo.

Nosso satélite natural é muito generoso com os iniciantes na astrofotografia, pois apesar de não possuir luz própria, ele reflete luz suficiente para belas fotos sem muita dificuldade. Mesmo câmeras sem telescópios são capazes de registrar as maiores crateras lunares com lentes de zoom, ou então telescópios simples (sem motorização) com modestas câmeras digitais também produzem belas fotos.

Reflexão


Como citado anteriormente, a Lua não possui luz própria. Mas como ela brilha tão intensamente?

Todo esse brilho que notamos na Lua deve-se à uma propriedade física chamada albedo ou coeficiente de reflexão. O albedo determina a capacidade que uma superfície possui de refletir a luz solar, variando numa escala de 0 (nada refletivo) até 1 (perfeitamente refletivo), ele pode ser aferido tanto num pedaço de carvão, quanto num asteroide ou mesmo um planeta inteiro. A Lua, que é o tema principal deste tópico, possui albedo total em torno de 0,12 e reflete tanto a luz do Sol quanto a luz proveniente da Terra.

Luz cinérea


Sim, você não leu errado. A Lua reflete tanto a Luz do Sol quanto a luz refletida pelo planeta Terra. Tal como a Lua, a Terra também possui um coeficiente de reflexão (albedo) que, em média, fica entre 0,30 a 0,35 a depender da cobertura de nuvens que influenciam diretamente nesta propriedade. Portanto, a Terra reflete a luz emitida pela Sol em direção à Lua tal como a Lua reflete para a Terra.

A luz refletida pela Terra é tão poderosa que é capaz de iluminar o lado escuro (não o lado oculto, que são coisas distintas) da Lua. Em noites de Lua nova podemos notar este efeito na parte escura do nosso satélite natural, basta ver que a região escura não está totalmente invisível, sendo possível observá-la em tons cinéreos, isto é, tons cinzentos. A luz que proporciona esta observação é justamente a luz que a Terra está refletindo, enquanto que a parte mais brilhante da Lua (a fase) está sendo iluminada pelo Sol.

A foto que encabeça esta publicação foi tirada por mim durante a fase crescente da Lua, no mesmo período lunar que proporcionou o eclipse total solar no Chile e na Argentina no dia 2 de julho de 2019. Nesta imagem temos metade da Lua iluminada pelo Sol e a outra metade iluminada pelo brilho da Terra (earthsine, ashen glow, Da Vinci's glow ou, simplesmente, luz cinérea).

Devido à diferença de luminosidade, foram necessárias duas fotos com configurações diferentes na câmera, apesar de estar utilizando o mesmo telescópio nas duas fotos. Uma imagem foi em longa exposição para pegar a parte escura e o fundo de estrelas e a outra foi em curta exposição para capturar a fase lunar sem saturar a imagem. Depois de tomadas as fotos, as duas foram empilhadas em HDR (high dynamic range) que é uma técnica de composição fotográfica que permite extrair uma maior escala de luzes na fotos que vai de tons mais claros aos tons mais escuros. Dificilmente (ou quase impossível) obter uma foto assim numa única exposição.
Curta exposição: 1/100 segundo ISO100
Longa exposição: 5 segundos ISO400
A técnica apresentada nesta publicação é muito comum na fotografia digital, seu ponto principal é a capacidade de revelar mais detalhes do objeto fotografado. Quando aplicamos tais técnicas nos objetos celestes conseguimos belas fotos, porém nem sempre é possível fazê-lo, mas garante algumas horas de trabalho e diversão.

Até a próxima!

Abraços,
Delberson.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Joias e diamantes - Messier 46

Aglomerado Aberto de Estrelas Messier 46
Messier 46, ou simplesmente M46, pertence a uma classe muito comum de objetos de céu profundo, que é a classe dos aglomerados estelares abertos. Este tipo de objeto é abundante no céu noturno, sendo possível encontrar um em cada canto do céu praticamente. No entanto, nem por isso são menos interessantes, porque apresentam-se em diferentes formas e cores, alguns deles apresentam até mesmo nebulosidade associada ao aglomerado.

Aglomerados estelares abertos possuem como característica intrínseca a jovialidade, geralmente os seus membros são estrelas jovens com a mesma idade e com o tempo vão se afastando uma das outras. Dentre as estrelas de M46 podemos notar que há algo diferente, com forma circular e cor esverdeada, este objeto já foi uma estrela um dia. NGC 2438 é agora uma nebulosa planetária, que é o resultado do final da vida de uma estrela com massa similar à do nosso Sol.

Então como pode haver uma estrela morta no meio de um aglomerado de estrelas jovens? Simplesmente porque estes objetos não estão no mesmo local, estão bem distantes entre si na verdade, porém estão na mesma linha de visada do observador aqui na Terra. Assim como quando uma pessoa observa um avião passando pela Lua, apesar de estarem no mesmo campo de visão, estão muito distantes um do outro.

Desde que iniciei na astrofotografia amadora o desejo em fotografar este aglomerado estelar já me conduzia a colocá-lo na minha lista de desejos, possivelmente pelo fato de haver esse outro objeto muito peculiar "dentro" do aglomerado. Como disse agora há pouco, cada aglomerado possui o seu charme e, neste sentido, M46 se destaca por haver uma nebulosa planetária (NGC 2438) contida em seu interior. Uma frase que descreve bem este objeto: "Messier 46 é como uma caixa de diamantes que abriga uma joia."
Nebulosa Planetária NGC 2438
Mas as surpresas não param por aqui! Além desta bela joia inserida dentre os diamantes, há ainda outra nebulosa planetária no mesmo campo de visão. Sim, SÃO DUAS NEBULOSAS PLANETÁRIAS! Sendo a segunda bem menor e mais tênue do que a que está no aglomerado, mas ainda assim se faz presente na foto.
Nebulosa Planetária PK231+4.1
Destaques para as pequenas nebulosas.
#Dados do objeto:
Nome: M46
Catálogo: Messier 46, NGC 2437
Descrição: Aglomerado aberto
Constelação: Puppis (Popa)
Magnitude Visual: +6.09
Tamanho Aparente: 20 arcmin.
Dist. Estimada: 4.900 anos-luz
Fonte: SkySafari 4 Plus app
#Equipamento:
Telescópio: Refrator Orion ED80
Distância Focal: 600mm
Câmera: QHY163M
Montagem: HEQ5 Pro
Filtros: LRGB Optolong
Guiagem: buscadora Meade 8x50 com câmera Starlight Superstar mono
Acessórios: aplanador de campo Orion; roda de filtros manual StarGuider

#Dados da captura:
Lum. (filtro L): 1.6 horas (subs 180s) bin1x1 -10° C
Vermelho (filtro R): 13 min. (subs 60s) bin1x1 -10° C
Verde (filtro G): 14 min. (subs 60s) bin1x1 -10° C
Azul (filtro B): 15 min. (subs 60s) bin1x1 -10° C
Exp. Total: 2.3 horas
Calibração: darks
Local: Silvânia / Goiás / Brasil
Data: 25 de maio de 2.019
Escala bortle: 4-5
Programas para aquisição: APT; EQMod; PHD 2
Programas para processamento: PixInsight e Photoshop CS6

sexta-feira, 3 de maio de 2019

The Dolphin Nebula - SH2-308 (ChileScope)

A astrofotografia amadora sofreu uma revolução nos últimos anos devido ao avanço da tecnologia que permitiu dois saltos importantes: mais qualidade nas imagens e maior acesso aos equipamentos. Telescópios bem corrigidos em escala industrial, montagens mais precisas, câmeras mais sensíveis e vários programas de controle e processamento, tudo isso agora acessível através das lojas especializadas no assunto.

Da mesma forma, o acesso a equipamentos remotos também se tornou uma realidade aos amadores, existem empresas que disponibilizam os seus equipamentos mediante o pagamento por tempo de uso e você pode, por exemplo, operar um telescópio a centenas de quilômetros de distância com céu isento de poluição luminosa a partir do seu quarto de casa.

Dentre as empresas que fornecem tal serviço há a ChileScope que conheci através de uma rede social (Facebook) e que promove eventos nos quais ela disponibiliza dados capturados pelos telescópios das instalações para os astrônomos amadores processarem as imagens. É uma via dupla, pois promove a empresa e possibilita o acesso a dados de alta qualidade.

Os telescópios da ChileScope são de causar inveja a qualquer astrônomo amador, todos equipamentos high end e quase impossível de se adquirir no Brasil devido aos custos dos produtos com frete e taxas de importação. Veja abaixo uma breve descrição:
  • Telescópio Newtoniano ASA 20'' f3,6 com corretor 3'' Wynne
    Custo aproximado: $14,816.15 USD;
  • Montagem Equatorial ASA DDM85 (capacidade de 100kg)
    Custo aproximado: $18,000.00 USD;
  • Câmera CCD FLI PROLINE PL16803 MONOCHROME
    Custo aproximado: $10,995.00 USD.
Trata-se de um telescópio refletor com 500mm de abertura, extremamente rápido (F/3.6), com corretor de coma de 3" e montagem equatorial com capacidade de carga para 100 quilos, tudo isso fornecido pela Astro Systeme Austria (ASA) que é uma das maiores empresas (senão a maior) de telescópios de alta precisão. Numa conversão bem grosseira dos valores, estimamos que um conjunto como esse custaria para ser trazido ao Brasil algo em torno de R$ 400.000,00 a R$ 500.000,00.

Acha que acabou? SQN.

Tudo isso montado em cúpulas no Chile, que é considerado um dos melhores locais do mundo em termos de qualidade de céu. Local isento de poluição luminosa, baixa umidade, baixa poluição atmosférica... não é por menos que vários observatórios profissionais estão instalados por lá. Para saber mais sobre a ChileScope, acesse: http://www.chilescope.com/

Recentemente a empresa disponibilizou os dados de captura de um objeto muito difícil de registrar com equipamentos amadores convencionais, pois exige filtros de banda estreita e longos tempos de exposição. Trata-se da nebulosa Sh2-308, também designada por Sharpless 308, RCW 11 ou LBN 1052, é uma nebulosa de emissão e região HII localizada perto do centro da constelação Cão Maior, composta por hidrogênio ionizado; está a cerca de 8 graus ao sul de Sirius, a estrela mais brilhante no céu noturno. A nebulosa é como uma bolha cercando uma estrela de Wolf-Rayet chamada EZ Canis Majoris, esta estrela está na breve fase pré-supernova de sua evolução estelar, estando a cerca de 4.530 anos-luz da Terra.

Foram disponibilizados 52 frames com 1.200 segundos de exposição (20 minutos por frame, somando mais de 17 horas de exposição) com os seguintes filtros: H-Alpha, Oxygen III, Luminance, Red, Green e Blue, totalizando aproximadamente 1.6 Gb de dados de imagem e mais 4.6 Gb de dados para calibração (darks, bias e flats). Existem algumas falhas no canal verde (G) e na luminância (L), mas não afetou o meu processamento porque eu utilizei apenas os dados capturados em banda estreita (h-alpha e oxigênio III), desta forma mantem-se as estrelas mais controladas e com maior destaque para a nebulosa.

Utilizando apenas dois filtros faz-se necessário sintetizar o terceiro canal para obtermos uma imagem RGB, desta forma aplicamos o h-alpha no canal vermelho, o oxygen III no azul e no verde utilizamos uma combinação de 65% OIII e 35% Ha, chamamos este processo de HOO.

Eis o resultado da captura do ChileScope com o meu processamento:


Dados da Captura e Processamento:

  • Telescópio Newtoniano ASA 500mm F/3.6 com corretor Wynne 3";
  • Montagem Equatorial ASA DDM85;
  • Câmera CCD Monocromática FLI Proline PL16803;
  • Exposição: 15x 1200s H-alpha / 12x 1200s OIII (total 9 horas);
  • Processamento: PixInsight 1.8

Em alta resolução: The Dolphin Nebula - SH2-308

Seguem abaixo os links para o download dos dados desta captura caso queiram se aventurar também:
Agradeço à equipe do ChileScope por disponibilizar os dados e espero que continuem a fazê-lo para a alegria dos astrônomos amadores.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Nebulosa Roseta - NGC 2237

Nebulosa Roseta - NGC 2237
Nebulosa Roseta (NGC 2237) é uma imensa região na constelação monoceros (unicórnio) visível no hemisfério sul durante o verão. Trata-se de uma área muito rica em hidrogênio ionizado (zonas vermelhas na imagem), além de possuir inúmeros objetos de interesse como pequenas nebulosas escuras, glóbulos de bok e nuvens moleculares.

Monoceros é uma constelação vizinha a Órion, O Caçador, portanto a Roseta desempenha um papel coadjuvante nos céus do início do ano. Menos brilhante do que a grande Nebulosa de Órion, porém muito maior do que ela ocupando uma área equivalente a cinco luas cheias no céu. É tão vasta que é praticamente impossível catalogá-la com uma única entrada no catálogo NGC (New General Catalog) comumente usado para enumerar os objetos de céu profundo. Há no mínimo cinco entradas no catálogo, sendo:

  • NGC 2237 - normalmente utilizado para toda a nebulosa, a descrevendo como "razoavelmente brilhante, bem grande e difusa";
  • NGC 2238 - parte da região nebulosa;
  • NGC 2239 - outra parte da região nebulosa;
  • NGC 2244 - o aglomerado aberto dentro da nebulosa;
  • NGC 2246 - parte da região nebulosa.


Apesar de ser um objeto consideravelmente grande, a região nebulosa é pouco brilhante tornando a observação direta através do telescópio bastante difícil; contudo o aglomerado ao centro é facilmente observado em pequenos telescópios e, em alguns casos, as nebulosas escuras também são visíveis em telescópios maiores.

Sem dúvidas o ponto mais marcante deste objeto é a bela semelhança que ele possui com uma rosa, cujos braços nebulosos remetem às pétalas de uma flor, aproximando assim a nossa concepção de realidade com o cosmos.

Destaques interessantes

Conforme escrito anteriormente, este objeto é rico em zonas de interesse, destaquei alguns recortes da imagem principal:
Aglomerado aberto de estrelas central.

Pequenas nebulosas escuras no centro (leopardos).

Pequenas nebulosas escuras.

Nuvens moleculares.

Glóbulos de Bok.
A captura

Este objeto configurava em minha lista de desejos há muito tempo, apesar da aparência imponente nas fotos de longa exposição, a Roseta é muito tênue e exige longos tempos de exposição, mesmo com câmeras dedicadas refrigeradas. Neste caso o filtro hidrogênio-alpha ajuda muito. Vejam abaixo uma imagem que fiz desta nebulosa com o mesmo telescópio, porém utilizando uma câmera fotográfica DSLR modificada em 2016:
Imagem com o 4,2 horas de exposição com câmera DSLR.
Agora observem a captura de 2019 com o filtro h-alpha:
Imagem com o 3,6 horas de exposição com filtro h-alpha 7nm.
#Dados do objeto:
Nome: Nebulosa da Roseta / Rosette Nebula / Nebulosa da Rosa
Catálogo: NGC 2238, NGC 2239, NGC 2246, NGC 2237, C 49, LBN 948
Descrição: nebulosa de emissão
Constelação: Monoceros (Unicórnio)
Magnitude Visual: +5.50
Tamanho Aparente: 80 x 60 arcmin.
Dist. Estimada: 5.500 anos-luz
Fonte: SkySafari 4 Plus app
Localização da nebulosa na constelação Monoceros.
#Equipamento:
Telescópio: Refrator Orion ED80
Distância Focal: 600mm
Câmera: QHY163M
Montagem: HEQ5 Pro
Filtros: LRGB Optolong, H-Alpha 7nm Baader
Guiagem: buscadora Meade 8x50 com câmera Starlight Superstar mono
Acessórios: aplanador de campo Orion; roda de filtros manual StarGuider

#Dados da captura:
Lum. (filtro H-Alpha): 3.6 horas (subs 300s) bin1x1 -10° C
Vermelho (filtro R): 0.5 hora (subs 120s) bin2x2 -10° C
Verde (filtro G): 0.5 hora (subs 120s) bin2x2 -10° C
Azul (filtro B): 0.5 hora (subs 120s) bin2x2 -10° C
Exp. Total: 5.1 horas
Calibração: darks
Local: Silvânia / Goiás / Brasil
Data: 15 de janeiro de 2.019
Escala bortle: 4-5
Programas para aquisição: APT; EQMod; PHD 2
Programas para processamento: PixInsight e Photoshop CS6

#Image Plate Solver:
Resolution ........ 1.318 arcsec/pix
Rotation .......... -33.010 deg
Focal ............. 594.59 mm
Pixel size ........ 3.80 um
Field of view ..... 1d 34' 42.2" x 1d 9' 46.7"
Image center ...... RA: 06 31 57.552  Dec: +04 59 20.49

#Melhor resolução:
Astrobin: resolução 2200x1621

Abraços!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Cometa 46p Wirtanen

Cometa 46p Wirtanen
Frequentemente o sistema solar interior é visitado por viajantes distantes, pequenos corpos celestes originários do Cinturão de Kuiper (cometas de período curto) ou da Nuvem de Oort (cometas de período longo) situada além da órbita de Netuno, e por isto chamados objetos transnetunianos. Estes corpos de rocha e gelo se dirigem em direção ao Sol e invadem a órbita dos planetas interiores.

Aqui na Terra o chamamos de cometas, estes objetos são capazes de promover incríveis shows no céu, principalmente quando aumentam de brilho se tornando visíveis a olho nú. Apesar de poucos cometas conseguirem atingir magnitudes abaixo de 6 e portanto visíveis sem instrumentos, muitos deles invadem a órbita dos planetas interiores e passam pela Terra timidamente.

Astrônomos profissionais e amadores monitoram cometas frequentemente e massivamente, tanto pelo risco que podem oferecer em caso de colisão com o nosso planeta, quanto pela expectativa de aumentarem de brilho rapidamente e promoverem belos espetáculos celestes. Atualmente o cometa mais brilhante no céu e com mais expectativas positivas é o 46p Wirtanen, que é um cometa de período curto (5,44 anos conforme o site Heavens Above).

Quando estes objetos atingem magnitudes abaixo de 6 eles podem ser facilmente registrados com câmeras fotográficas e teleobjetivas sobre um tripé, contudo quando desejamos registrar além do núcleo cometário também a cauda e as estrelas de fundo a coisa complica. Explico: a montagem equatorial reproduz o movimento de rotação da Terra deixando as estrelas "fixas" no sensor da câmera (até aí tudo bem); o problema é que o cometa se move numa velocidade diferente e até mesmo numa direção diferente, então em quadros muito longos ele não fica bem definido pois fica com arrastro e no empilhamento (que é o principal recurso na criação da imagem) a posição do cometa se altera entre os quadros.

Os programas de empilhamento tentam compensar o deslocamento do cometa através de algoritmos próprios, entretanto raramente fica bem definido. Registrar um cometa com riqueza de detalhes é sempre uma tarefa árdua para os astrofotógrafos, mesmo para os mais experientes. Por isso em muitos casos vemos diversas imagens com poucos detalhes e muito ruído porque não foi utilizado o empilhamento de imagens. A imagem no título desta postagem foi obtida fazendo duas pilhas diferentes, uma para as estrelas e outra para o cometa, depois mesclei ambas imagens para conseguir o resultado apresentado.
Gif animado demonstrando o movimento próprio do cometa
em relação às estrelas de fundo.
O pequeno vídeo acima foi criado a partir das imagens que utilizei para criar a imagem do título, em vez de empilhar eu fiz uma sequência com cada uma das 60 fotos tiradas, portanto o movimento que vemos no vídeo retrata o deslocamento do cometa durante uma hora. A imagem apresenta o campo integral que consigo (FOV) no meu telescópio (Orion ED80 - 600mm de distância focal) com a câmera QHY163M, cuja resolução é de 1,31 arcseg/pixel.
Recorte da região central para destacar o pequeno cometa.
A partir de outubro quando a temporada de chuvas de fato se inicia em Goiás, raramente ocorrem noites favoráveis à astrofotografia, no ano passado foram praticamente seis meses sem usar o telescópio. Para a minha sorte, em 27 e 28 de novembro ocorreram duas noites de céu limpo, então me possibilitou registrar o cometa 46p Wirtanen. Notei que o cometa ainda não havia desenvolvido a cauda (característica marcante dos cometas), mas isto se deve ao fato que ele ainda não estava próximo o suficiente do Sol, sendo mais provável que a cauda se desenvolva em meados de dezembro.

Na noite do dia 28 de novembro de 2.018 o cometa 46p Wirtanen se encontrava na constelação de Cetus (baleia) numa área sem grandes objetos significativos, mas é possível observar algumas pequenas galáxias na imagem. Provavelmente hoje ele deva estar numa constelação diferente haja vista o seu movimento em direção ao Sol. Caso ocorram novas noites de céus limpos espero conseguir registrá-lo novamente e talvez já com a cauda desenvolvida.

#Dados do objeto:
Nome: 46p Wirtanen
Descrição: cometa
Constelação: Cetus (Baleia)
Magnitude Visual estimada: +6.50
Dist. Estimada: 0,130 UA
Período: 5,44 anos
Fonte: https://www.heavens-above.com/

#Equipamento:
Telescópio: Refrator Orion ED80
Distância Focal: 600mm
Câmera: QHY163M
Montagem: HEQ5 Pro
Filtros: L Optolong
Guiagem: buscadora Meade 8x50 com câmera Starlight Superstar mono
Acessórios: aplanador de campo Orion; roda de filtros manual StarGuider

#Dados da captura:
Lum. (filtro L): 1 hora (subs 60s) bin1x1 -10° C
Exp. Total: 1 hora
Calibração: darks
Local: Silvânia / Goiás / Brasil
Data: 28 de novembro de 2.018
Escala bortle: 4-5
Programas para aquisição: APT; EQMod; PHD 2
Programas para processamento: DSS e Photoshop CS6

#Melhor resolução:
Astrobin: resolução 4528 x 3350

Abraços!

domingo, 16 de setembro de 2018

Nebulosa da Hélice - NGC 7293

Nebulosa da Hélice - NGC 7293
Nebulosa da Hélice é uma nebulosa do tipo planetária na constelação de aquário, acredito que este seja o único objeto que eu já tenha fotografado nesta constelação. Nebulosas planetárias se formam ao final da vida de uma estrela do tipo solar, logo após a fase de gigante-vermelha a estrela colapsa sobre si explodindo em forma de supernova e o remanescente disso forma a nebulosa planetária. Apesar do nome, esta classe de objeto nada tem a ver com os planetas, a nomenclatura se deve à época do descobrimento deste tipo de nebulosa que se parecia com os planetas gasosos observados por um telescópio.

A Hélice pertence a uma classe de objetos de céu profundo muito difícil de se registrar (principalmente com o meu equipamento), pois as nebulosas planetárias reúnem consigo dois fatores complicadores: são pequenas e tênues. Ou seja, essa classe de objeto congrega uma característica  da fotografia planetária (pequeno tamanho angular) com uma característica dos objetos de céu profundo (tenuidade). Portanto esta combinação exige do equipamento boa capacidade de guiagem para pequenos campos e alta sensibilidade, respectivamente.

Há inúmeros motivos para se fotografar esta nebulosa, um deles é porque para a nossa felicidade a Nebulosa da Hélice escapa um pouco da regra anterior sendo relativamente grande, possivelmente devido à sua proximidade em relação à Terra (700 anos-luz). A sua posição também favorece aos observadores aqui na Terra, pois a vemos "face a face". Este objeto é muito famoso por ser um daqueles popularizados pelo telescópio espacial Hubble, algumas pessoas gostam de se referir a esta nebulosa como um olho cósmico no céu que nos observa e por isso recebeu o apelido popular de O Olho de Deus. Eu, particularmente, a chamaria de O Olho de Agamotto (risos).

A captura

A captura desta nebulosa ocorreu de forma despretensiosa porque eu estava capturando algumas nebulosas em h-alpha no bojo da Via Láctea na constelação de sagitário e, logo após o declínio desta no horizonte, o único objeto atraente nesta faixa espectral era NGC 7293. Eu já havia me frustado várias vezes tentando capturá-la, tanto com câmera DSLR quanto com a câmera dedicada. A Hélice é muito tênue e as nebulosidades adjacentes são mais tênues ainda, a captura anterior em LRGB se mostrou bem medíocre e por isso nem foi publicada, contudo a integração com o h-alpha salvou os dados anteriores produzindo uma imagem bastante interessante.
Hélice em H-Alpha
Outro problema foi reunir dados de 4 noites diferentes cuja rotação da câmera estava diferente em cada uma delas, mesmo os programas de empilhamento mais eficientes possuem dificuldades em compensar a falta de informação em certas partes do campo, a princípio pensei que não seria possível formar uma imagem apresentável, mas no final com alguns ajustes na referência tudo se encaixou bem.

Um detalhe muito interessante nesta imagem é a quantidade de informações/detalhes registrados na foto, é possível identificar finas estruturas no centro da nebulosa como os glóbulos cometários em direção ao centro onde se encontra uma estrela anã-branca, percebemos também os filamentos na borda em formas de tentáculos. Por anos tais detalhes só eram acessíveis aos melhores telescópios profissionais na Terra, vê-los em minha imagem me deixa extremamente satisfeito porque foi capturado com um minúsculo telescópio com 80mm de abertura, demonstra portanto que o telescópio é de boa qualidade, a câmera é muito sensível e o foco foi bem feito pelo operador (no caso eu - risos).


#Dados do objeto:
Nome: Nebulosa da Hélice / Helix Nebula / Nebulosa Olho de Deus
Catálogo: NGC 7293 / C 63 / ARO 17
Descrição: nebulosa planetária
Constelação: Aquarius (Aquário)
Magnitude Visual: +7.59
Tamanho Aparente: 14.7 x 12.0 arcmin.
Dist. Estimada: 700 anos-luz
Fonte: SkySafari 4 Plus app
Localização da nebulosa na constelação Aquarius.
#Equipamento:
Telescópio: Refrator Orion ED80
Distância Focal: 600mm
Câmera: QHY163M
Montagem: Veronica CEM e HEQ5 Pro
Filtros: LRGB e L-PRO Optolong, H-Alpha 7nm Baader
Guiagem: buscadora Meade 8x50 com câmera Starlight Superstar mono
Acessórios: aplanador de campo Orion; roda de filtros manual StarGuider

#Dados da captura:
Lum. (filtro L): 2,34 horas (subs 300s) bin1x1 -10° C
Lum. (filtro H-Alpha): 4,67 horas (subs 300s) bin1x1 -10° C
Vermelho (filtro R): 1 hora (subs 180s) bin1x1 -10° C
Verde (filtro G): 1 hora (subs 180s) bin1x1 -10° C
Azul (filtro B): 1 hora (subs 180s) bin1x1 -10° C
Exp. Total: 10 horas
Calibração: darks
Local: Silvânia / Goiás / Brasil
Data: 10-13 de agosto de 2.018
Escala bortle: 4-5
Programas para aquisição: APT; EQMod; PHD 2
Programas para processamento: PixInsight e Photoshop CS6

#Image Plate Solver:
Resolution ........ 1.318 arcsec/pix
Rotation .......... -15.069 deg
Focal ............. 594.59 mm
Pixel size ........ 3.80 um
Field of view ..... 1d 4' 23.0" x 45' 1.3"
Image center ...... RA: 22 29 39.176  Dec: -20 51 07.50

#Melhor resolução:
Flickr: resolução 1920 x 1343

Abraços!

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Equipamentos: Como Comprar um Telescópio Usado - Parte 2


Em continuidade ao artigo anterior, abordaremos nesta etapa mais três fatores que devem ser analisados no momento da compra de um equipamento astronômico usado.

Tempo de uso

Ao contrário do que muitos pensam, com exceção das câmeras, todos os demais equipamentos astronômicos possuem vida útil prolongada. Telescópios bem conservados podem ser usados por décadas, tudo depende exclusivamente do zelo do proprietário anterior, portanto, a procedência é mais importante do que a idade do equipamento.

Preço

Geralmente fazemos um paralelo do preço do equipamento novo com o valor ofertado no usado, porém existem diversos fatores que complicam essa questão. Praticamente todos os produtos astronômicos são importados e por isso cotados em dólar, considerando a volatilidade do câmbio, o preço de um equipamento pode se diferenciar muito num determinado prazo. Infelizmente, nos últimos anos, vi surgir no Brasil uma prática muito desleal da parte de algumas pessoas que consiste em comprar equipamentos usados por valores baixos e depois revendê-los aplicando uma considerável margem de lucro, esta atividade inflacionou o mercado de usados e desconfigurou o mercado. O negócio de usados era a chance de quem estava com pouco dinheiro comprar equipamentos de qualidade a preços acessíveis mas, com a entrada dos "atravessadores", o preço de um usado se equiparou ou superou o valor do equipamento novo dificultando o acesso do público-alvo ao telescópio usado. Além disso, a escassez na oferta de equipamentos novos no Brasil aumentou a procura por equipamentos usados e isto também contribuiu significativamente para o aumento de preços. Uma dica neste caso é sempre consultar o valor do equipamento novo (em dólares), somar o valor do frete, aplicar a soma dos impostos (imposto de importação - 60%, IOF - 6,38% e o ICMS conforme a alíquota estadual) lembrando que os impostos são aplicados sobre o valor do produto mais o valor do frete. O ideal é que o preço do usado fique abaixo do valor obtido na consulta do novo.

Cosmética

Acredito que este seja o primeiro aspecto que um futuro comprador observa no equipamento e, não por menos, o deixei por último neste artigo propositalmente. Explico. Defeitos cosméticos sempre nos incomodam, manchas e arranhões na pintura tiram a beleza de um telescópio, contudo este aspecto pode conduzir a falsas conclusões. Um telescópio com o tubo arranhado e manchado, mas com a ótica limpa e ilesa ainda será um bom telescópio; já o contrário não se aplica neste caso. Ou seja, um equipamento esteticamente atraente mas com a ótica repleta de fungos e/ou riscos é um equipamento praticamente perdido. Não é regra, mas em geral usuários zelosos mantêm tanto a ótica quanto a estética bem conservadas, mas há diversos casos de telescópios com óticas impecáveis em tubos arranhados e/ou amassados. Portanto não se engane pela cosmética do instrumento, se importe com o que realmente é necessário, isto é, a ÓTICA!

Conclusão


O objetivo deste artigo é orientar e compartilhar experiências. Um equipamento danificado dificilmente pode ser reparado no Brasil, há poucas pessoas capacitadas para isso e, mesmo quando tem, a logística para enviar esse tipo de equipamento quase sempre é proibitiva devido ao custo e ao risco no transporte. Além disso, adicione também a dificuldade na aquisição de peças de reposição.

Espero que o artigo tenha sido útil não apenas para orientar acerca da aquisição de um equipamento usado, mas também para orientar quanto à conservação dos equipamentos já comprados. Afinal, talvez você resolva vendê-los um dia!

Abraços e até a próxima!