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sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Construção de um focalizador eletrônico (myFocuserPro)

Na astronomia, apesar de toda a tecnologia que temos nos telescópios e sensores, na maioria esmagadora dos telescópios amadores o foco é feito de forma manual através de um focalizador.

Como vocês estão acompanhando no YouTube a série de vídeos da reforma do telescópio 150mm: Série no YouTube

Chegou a vez de trabalharmos no focalizador do equipamento! Vamos implementar um sistema de foco eletrônico com possibilidade de ser feito por teclas ou mesmo pelo computador, inclusive com monitoramento automático do foco ao longo da noite.

"Construir algo é sempre mais prazeroso e recompensador do que simplesmente enfiar a mão no bolso e comprar. Há uma certa magia em pegar materiais alheios à astronomia e transformá-los em instrumentos capazes de estudar as estrelas."

O modelo escolhido, dentre os vários projetos presentes na internet, foi o myFOCUSERPRO, que é um sistema muito completo, com suporte a diversos motores, suporte a sensor de temperatura e o principal: suportado pela plataforma ASCOM/INDI que nos permite comunicar com os melhores programas de automação de telescópios como NINA, APT, etc.

Placa de fixação do motor de passo.

Eletrônica fácil de montar, fiz numa placa perfurada 5x10.

Placa controladora pronta.
Existem algumas versões mais simples e outras mais sofisticadas, eu optei por uma das mais completas e achei o desafio com dificuldade moderado/avançado. Eu li toda a documentação (pdf com mais de 200 páginas em inglês) e mesmo assim surgiram alguns problemas não relatados que precisei solucionar sozinho.

É importante destacar que existem INÚMERAS VERSÕES deste sistema, cada qual com suas peculiaridades, algumas fazem uso até mesmo do display Nokia. Optamos em construir a versão myFocuserPro2 versão para arduino Nano com driver ULN2003 e display OLED. Existem vários motivos pela nossa escolha, mas o principal deles é que eu já possuía todos os componentes em casa, que são facilmente encontrados nas lojas do Mercado Livre.

Em nosso canal do YouTube fizemos dois vídeos sobre o sistema, o primeiro explica todo o funcionamento de um focalizador eletrônico e os benefícios de sua aplicação, recomendo que vejam o vídeo no link abaixo:
O segundo vídeo trata do processo de construção do equipamento e com algumas dicas bem interessantes sobre este tipo de projeto, vejam no link abaixo:

Circuito em testes na bancada.

Conjunto pronto para uso.
Considerações finais:

O projeto é bem agradável, se bem construído fica bastante robusto. A construção não é tão complicada para quem já trabalhou com Arduino antes. O que nos falta agora é testar na prática, isto é, montado ao telescópio e apontado para as estrelas. 😁😁😁

Logo que tivermos céus limpos aqui no observatório faremos os devidos testes e, possivelmente, uma nova publicação com as impressões gerais.

Abraços e céus limpos!

domingo, 25 de setembro de 2022

Dezenas de Telescópios no Mato: o EBA

Você sabia que existe uma espécie de StarParty no Brasil?

?     Mas o que é uma StarParty?
R.: São eventos muito populares nos Estados Unidos cujo tema central é a Astronomia Amadora.

Imagine uma amontoado de gente falando sobre o mesmo assunto, compartilhando a paixão pelo Cosmos, experiências observacionais, dados coletados, inovações técnicas de processamento, gambiarras astronômicas, pois é ESTE EVENTO É O EBA - O ENCONTRO BRASILEIRO DE ASTROFOTOGRAFIA!

Turma do EBA 2022

É o evento mais próximo de uma StarParty que você tem no Brasil, é uma congregação de gente legal que dá muita risada junto, pega sereno no escuro e principalmente: CELEBRA A AMIZADE!

O EBA existe há mais de uma década, este ano foi realizada a 13ª Edição, EU ESTAVA LÁ E VOU TE CONTAR COMO FOI. O evento esteve pausado por dois anos em razão da pandemia, em 2022 o evento foi realizado retomando esta maravilhosa tradição. Em virtude dos tempos pandêmicos, notei que esta edição foi uma pouco reduzida em relação aos anos anteriores. O fato de contar com dois finais de semana também ajudou a pulverizar a galera, então nem todo mundo se viu.

Há quem prefere acampar

O evento foi realizado num aconchegante lugar, um hotel fazenda em Formosa-GO. O principal é estar longe da poluição luminosa! VAMOS EM BUSCA DO CÉU MAIS ESCURO POSSÍVEL! A melhor parte do EBA com certeza foi rever os amigos! Além disso é muito legal ver as diferentes abordagens que cada astrofotógrafo faz para registrar o céu:

  • há quem leve telescópios enormes;
  • há quem leve lunetas leves e compactas;
  • outros levam câmeras fotográficas e lentes;
  • alguns montam verdadeiros observatórios no campo;
  • outros saem desbravando a mata adjacente buscando composições do céu com a paisagem local;
  • e há também quem não leva nada e se diverte do mesmo jeito.

Esta foi a minha terceira participação no evento e esta edição foi muito especial porque tive a oportunidade de gravar entrevistas (bate-papos) com personalidades icônicas da astronomia brasileira, pessoas especiais pois têm muita história legal para compartilhar.

Algumas astrofotografias que produzi no evento deste ano:





Recomendo a vocês que se inscrevam no canal da Oficina Astronômica (Link do Canal) porque nos próximos vídeos teremos as entrevistas que revelam toda a MAGIA DO EBA!

Vídeo: https://youtu.be/EtOYVRYTS2A

Abração a todos!

Céus limpos!

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Nebulosa Roseta - NGC 2237

Nebulosa Roseta - NGC 2237
Nebulosa Roseta (NGC 2237) é uma imensa região na constelação monoceros (unicórnio) visível no hemisfério sul durante o verão. Trata-se de uma área muito rica em hidrogênio ionizado (zonas vermelhas na imagem), além de possuir inúmeros objetos de interesse como pequenas nebulosas escuras, glóbulos de bok e nuvens moleculares.

Monoceros é uma constelação vizinha a Órion, O Caçador, portanto a Roseta desempenha um papel coadjuvante nos céus do início do ano. Menos brilhante do que a grande Nebulosa de Órion, porém muito maior do que ela ocupando uma área equivalente a cinco luas cheias no céu. É tão vasta que é praticamente impossível catalogá-la com uma única entrada no catálogo NGC (New General Catalog) comumente usado para enumerar os objetos de céu profundo. Há no mínimo cinco entradas no catálogo, sendo:

  • NGC 2237 - normalmente utilizado para toda a nebulosa, a descrevendo como "razoavelmente brilhante, bem grande e difusa";
  • NGC 2238 - parte da região nebulosa;
  • NGC 2239 - outra parte da região nebulosa;
  • NGC 2244 - o aglomerado aberto dentro da nebulosa;
  • NGC 2246 - parte da região nebulosa.


Apesar de ser um objeto consideravelmente grande, a região nebulosa é pouco brilhante tornando a observação direta através do telescópio bastante difícil; contudo o aglomerado ao centro é facilmente observado em pequenos telescópios e, em alguns casos, as nebulosas escuras também são visíveis em telescópios maiores.

Sem dúvidas o ponto mais marcante deste objeto é a bela semelhança que ele possui com uma rosa, cujos braços nebulosos remetem às pétalas de uma flor, aproximando assim a nossa concepção de realidade com o cosmos.

Destaques interessantes

Conforme escrito anteriormente, este objeto é rico em zonas de interesse, destaquei alguns recortes da imagem principal:
Aglomerado aberto de estrelas central.

Pequenas nebulosas escuras no centro (leopardos).

Pequenas nebulosas escuras.

Nuvens moleculares.

Glóbulos de Bok.
A captura

Este objeto configurava em minha lista de desejos há muito tempo, apesar da aparência imponente nas fotos de longa exposição, a Roseta é muito tênue e exige longos tempos de exposição, mesmo com câmeras dedicadas refrigeradas. Neste caso o filtro hidrogênio-alpha ajuda muito. Vejam abaixo uma imagem que fiz desta nebulosa com o mesmo telescópio, porém utilizando uma câmera fotográfica DSLR modificada em 2016:
Imagem com o 4,2 horas de exposição com câmera DSLR.
Agora observem a captura de 2019 com o filtro h-alpha:
Imagem com o 3,6 horas de exposição com filtro h-alpha 7nm.
#Dados do objeto:
Nome: Nebulosa da Roseta / Rosette Nebula / Nebulosa da Rosa
Catálogo: NGC 2238, NGC 2239, NGC 2246, NGC 2237, C 49, LBN 948
Descrição: nebulosa de emissão
Constelação: Monoceros (Unicórnio)
Magnitude Visual: +5.50
Tamanho Aparente: 80 x 60 arcmin.
Dist. Estimada: 5.500 anos-luz
Fonte: SkySafari 4 Plus app
Localização da nebulosa na constelação Monoceros.
#Equipamento:
Telescópio: Refrator Orion ED80
Distância Focal: 600mm
Câmera: QHY163M
Montagem: HEQ5 Pro
Filtros: LRGB Optolong, H-Alpha 7nm Baader
Guiagem: buscadora Meade 8x50 com câmera Starlight Superstar mono
Acessórios: aplanador de campo Orion; roda de filtros manual StarGuider

#Dados da captura:
Lum. (filtro H-Alpha): 3.6 horas (subs 300s) bin1x1 -10° C
Vermelho (filtro R): 0.5 hora (subs 120s) bin2x2 -10° C
Verde (filtro G): 0.5 hora (subs 120s) bin2x2 -10° C
Azul (filtro B): 0.5 hora (subs 120s) bin2x2 -10° C
Exp. Total: 5.1 horas
Calibração: darks
Local: Silvânia / Goiás / Brasil
Data: 15 de janeiro de 2.019
Escala bortle: 4-5
Programas para aquisição: APT; EQMod; PHD 2
Programas para processamento: PixInsight e Photoshop CS6

#Image Plate Solver:
Resolution ........ 1.318 arcsec/pix
Rotation .......... -33.010 deg
Focal ............. 594.59 mm
Pixel size ........ 3.80 um
Field of view ..... 1d 34' 42.2" x 1d 9' 46.7"
Image center ...... RA: 06 31 57.552  Dec: +04 59 20.49

#Melhor resolução:
Astrobin: resolução 2200x1621

Abraços!

domingo, 16 de setembro de 2018

Nebulosa da Hélice - NGC 7293

Nebulosa da Hélice - NGC 7293
Nebulosa da Hélice é uma nebulosa do tipo planetária na constelação de aquário, acredito que este seja o único objeto que eu já tenha fotografado nesta constelação. Nebulosas planetárias se formam ao final da vida de uma estrela do tipo solar, logo após a fase de gigante-vermelha a estrela colapsa sobre si explodindo em forma de supernova e o remanescente disso forma a nebulosa planetária. Apesar do nome, esta classe de objeto nada tem a ver com os planetas, a nomenclatura se deve à época do descobrimento deste tipo de nebulosa que se parecia com os planetas gasosos observados por um telescópio.

A Hélice pertence a uma classe de objetos de céu profundo muito difícil de se registrar (principalmente com o meu equipamento), pois as nebulosas planetárias reúnem consigo dois fatores complicadores: são pequenas e tênues. Ou seja, essa classe de objeto congrega uma característica  da fotografia planetária (pequeno tamanho angular) com uma característica dos objetos de céu profundo (tenuidade). Portanto esta combinação exige do equipamento boa capacidade de guiagem para pequenos campos e alta sensibilidade, respectivamente.

Há inúmeros motivos para se fotografar esta nebulosa, um deles é porque para a nossa felicidade a Nebulosa da Hélice escapa um pouco da regra anterior sendo relativamente grande, possivelmente devido à sua proximidade em relação à Terra (700 anos-luz). A sua posição também favorece aos observadores aqui na Terra, pois a vemos "face a face". Este objeto é muito famoso por ser um daqueles popularizados pelo telescópio espacial Hubble, algumas pessoas gostam de se referir a esta nebulosa como um olho cósmico no céu que nos observa e por isso recebeu o apelido popular de O Olho de Deus. Eu, particularmente, a chamaria de O Olho de Agamotto (risos).

A captura

A captura desta nebulosa ocorreu de forma despretensiosa porque eu estava capturando algumas nebulosas em h-alpha no bojo da Via Láctea na constelação de sagitário e, logo após o declínio desta no horizonte, o único objeto atraente nesta faixa espectral era NGC 7293. Eu já havia me frustado várias vezes tentando capturá-la, tanto com câmera DSLR quanto com a câmera dedicada. A Hélice é muito tênue e as nebulosidades adjacentes são mais tênues ainda, a captura anterior em LRGB se mostrou bem medíocre e por isso nem foi publicada, contudo a integração com o h-alpha salvou os dados anteriores produzindo uma imagem bastante interessante.
Hélice em H-Alpha
Outro problema foi reunir dados de 4 noites diferentes cuja rotação da câmera estava diferente em cada uma delas, mesmo os programas de empilhamento mais eficientes possuem dificuldades em compensar a falta de informação em certas partes do campo, a princípio pensei que não seria possível formar uma imagem apresentável, mas no final com alguns ajustes na referência tudo se encaixou bem.

Um detalhe muito interessante nesta imagem é a quantidade de informações/detalhes registrados na foto, é possível identificar finas estruturas no centro da nebulosa como os glóbulos cometários em direção ao centro onde se encontra uma estrela anã-branca, percebemos também os filamentos na borda em formas de tentáculos. Por anos tais detalhes só eram acessíveis aos melhores telescópios profissionais na Terra, vê-los em minha imagem me deixa extremamente satisfeito porque foi capturado com um minúsculo telescópio com 80mm de abertura, demonstra portanto que o telescópio é de boa qualidade, a câmera é muito sensível e o foco foi bem feito pelo operador (no caso eu - risos).


#Dados do objeto:
Nome: Nebulosa da Hélice / Helix Nebula / Nebulosa Olho de Deus
Catálogo: NGC 7293 / C 63 / ARO 17
Descrição: nebulosa planetária
Constelação: Aquarius (Aquário)
Magnitude Visual: +7.59
Tamanho Aparente: 14.7 x 12.0 arcmin.
Dist. Estimada: 700 anos-luz
Fonte: SkySafari 4 Plus app
Localização da nebulosa na constelação Aquarius.
#Equipamento:
Telescópio: Refrator Orion ED80
Distância Focal: 600mm
Câmera: QHY163M
Montagem: Veronica CEM e HEQ5 Pro
Filtros: LRGB e L-PRO Optolong, H-Alpha 7nm Baader
Guiagem: buscadora Meade 8x50 com câmera Starlight Superstar mono
Acessórios: aplanador de campo Orion; roda de filtros manual StarGuider

#Dados da captura:
Lum. (filtro L): 2,34 horas (subs 300s) bin1x1 -10° C
Lum. (filtro H-Alpha): 4,67 horas (subs 300s) bin1x1 -10° C
Vermelho (filtro R): 1 hora (subs 180s) bin1x1 -10° C
Verde (filtro G): 1 hora (subs 180s) bin1x1 -10° C
Azul (filtro B): 1 hora (subs 180s) bin1x1 -10° C
Exp. Total: 10 horas
Calibração: darks
Local: Silvânia / Goiás / Brasil
Data: 10-13 de agosto de 2.018
Escala bortle: 4-5
Programas para aquisição: APT; EQMod; PHD 2
Programas para processamento: PixInsight e Photoshop CS6

#Image Plate Solver:
Resolution ........ 1.318 arcsec/pix
Rotation .......... -15.069 deg
Focal ............. 594.59 mm
Pixel size ........ 3.80 um
Field of view ..... 1d 4' 23.0" x 45' 1.3"
Image center ...... RA: 22 29 39.176  Dec: -20 51 07.50

#Melhor resolução:
Flickr: resolução 1920 x 1343

Abraços!

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Equipamentos: Como Comprar um Telescópio Usado - Parte 2


Em continuidade ao artigo anterior, abordaremos nesta etapa mais três fatores que devem ser analisados no momento da compra de um equipamento astronômico usado.

Tempo de uso

Ao contrário do que muitos pensam, com exceção das câmeras, todos os demais equipamentos astronômicos possuem vida útil prolongada. Telescópios bem conservados podem ser usados por décadas, tudo depende exclusivamente do zelo do proprietário anterior, portanto, a procedência é mais importante do que a idade do equipamento.

Preço

Geralmente fazemos um paralelo do preço do equipamento novo com o valor ofertado no usado, porém existem diversos fatores que complicam essa questão. Praticamente todos os produtos astronômicos são importados e por isso cotados em dólar, considerando a volatilidade do câmbio, o preço de um equipamento pode se diferenciar muito num determinado prazo. Infelizmente, nos últimos anos, vi surgir no Brasil uma prática muito desleal da parte de algumas pessoas que consiste em comprar equipamentos usados por valores baixos e depois revendê-los aplicando uma considerável margem de lucro, esta atividade inflacionou o mercado de usados e desconfigurou o mercado. O negócio de usados era a chance de quem estava com pouco dinheiro comprar equipamentos de qualidade a preços acessíveis mas, com a entrada dos "atravessadores", o preço de um usado se equiparou ou superou o valor do equipamento novo dificultando o acesso do público-alvo ao telescópio usado. Além disso, a escassez na oferta de equipamentos novos no Brasil aumentou a procura por equipamentos usados e isto também contribuiu significativamente para o aumento de preços. Uma dica neste caso é sempre consultar o valor do equipamento novo (em dólares), somar o valor do frete, aplicar a soma dos impostos (imposto de importação - 60%, IOF - 6,38% e o ICMS conforme a alíquota estadual) lembrando que os impostos são aplicados sobre o valor do produto mais o valor do frete. O ideal é que o preço do usado fique abaixo do valor obtido na consulta do novo.

Cosmética

Acredito que este seja o primeiro aspecto que um futuro comprador observa no equipamento e, não por menos, o deixei por último neste artigo propositalmente. Explico. Defeitos cosméticos sempre nos incomodam, manchas e arranhões na pintura tiram a beleza de um telescópio, contudo este aspecto pode conduzir a falsas conclusões. Um telescópio com o tubo arranhado e manchado, mas com a ótica limpa e ilesa ainda será um bom telescópio; já o contrário não se aplica neste caso. Ou seja, um equipamento esteticamente atraente mas com a ótica repleta de fungos e/ou riscos é um equipamento praticamente perdido. Não é regra, mas em geral usuários zelosos mantêm tanto a ótica quanto a estética bem conservadas, mas há diversos casos de telescópios com óticas impecáveis em tubos arranhados e/ou amassados. Portanto não se engane pela cosmética do instrumento, se importe com o que realmente é necessário, isto é, a ÓTICA!

Conclusão


O objetivo deste artigo é orientar e compartilhar experiências. Um equipamento danificado dificilmente pode ser reparado no Brasil, há poucas pessoas capacitadas para isso e, mesmo quando tem, a logística para enviar esse tipo de equipamento quase sempre é proibitiva devido ao custo e ao risco no transporte. Além disso, adicione também a dificuldade na aquisição de peças de reposição.

Espero que o artigo tenha sido útil não apenas para orientar acerca da aquisição de um equipamento usado, mas também para orientar quanto à conservação dos equipamentos já comprados. Afinal, talvez você resolva vendê-los um dia!

Abraços e até a próxima!

domingo, 9 de setembro de 2018

Equipamentos: Como Comprar um Telescópio Usado - Parte 1


Um tema muito relevante na astronomia amadora e pouco debatido é a compra de equipamentos astronômicos usados, diante disso resolvi escrever este artigo expondo algumas informações que podem ser úteis, haja vista que possuo experiência neste tipo de aquisição pois, com exceção da câmera QHY163M que comprei nova e das montagens equatoriais que construí, todo o restante foi adquirido no mercado de usados.

Todos nós desejamos fazer um bom negócio quando compramos algo, principalmente no que se refere a equipamentos astronômicos porque em geral são produtos com elevado valor agregado. Um problema neste tipo de negócio é a falta de experiência por parte de quem compra, e outro problema é a falta de informações acerca do estado do equipamento. Enumerarei a seguir alguns pontos que podem ajudar na tomada de decisão:

Marca do Equipamento

Em Astronomia a marca tem peso, é difícil falar em genérico nesta área. Existem inúmeras marcas, muitas delas manufaturadas pelo mesmo fabricante, contudo algumas marcas possuem controle de qualidade um pouco mais criterioso do que outras. O telescópio é um equipamento de precisão, apesar de muitos iniciantes pensarem que é um brinquedo. Um telescópio de verdade deve possuir qualidade ótica e mecânica, para isso bons subtratos custam caro elevando o valor final. Como exemplo cito os telescópios refratores (popularmente conhecidos como lunetas), refratores bem corrigidos usam lentes objetivas feitas com vidros nobres, no entanto a maioria disponível no mercado comum possui lentes de resina plástica (o que obviamente não é um telescópio, estando mais próximo de um brinquedo). Portanto antes de comprar pesquise sobre a marca do equipamento em questão, use o google exaustivamente, procure relatos de usuários, pesquise sobre astrofotografias feitas com aquele equipamento (bons telescópios produzem boas astrofotografias).

É difícil citar explicitamente que marca é boa ou ruim, mas uma maneira interessante é verificar quais marcas pessoas experientes no ramo usam. Se há algum astrofotógrafo de sua preferência, cujo trabalho lhe agrade, verifique a marca dos equipamentos que ele usa, dificilmente você encontrará em uso várias daquelas marcas anunciadas no Mercado Livre.

Procedência

Tal como pesquisamos a procedência de um veículo usado antes da sua aquisição, um telescópio exige o mesmo cuidado. Nada adianta um equipamento de uma boa marca se ele não recebeu os devidos cuidados pelo dono anterior. Como disse anteriormente, telescópios são equipamentos de precisão e exigem cuidados especiais no uso, transporte, manuseio e armazenamento. Por diversas vezes usuários pouco experientes ou pouco cuidadosos adquirem equipamentos, os danificam e logo depois tentam revendê-lo. Mal uso durante o manuseio pode causar danos irreversíveis, citarei alguns:
  • Montagem motorizada: toda montagem possui capacidade de carga nominal, a sua operação deve respeitar os limites estabelecidos pelo fabricante, caso contrário haverá desgaste prematuro dos componentes principais do equipamento, tais como: engrenagens, motores e rolamentos. Além disso, uma montagem motorizada do tipo germânica (que é a mais popular) deve trabalhar sempre bem balanceada, caso contrário provocará stress mecânico nos componentes que podem comprometer a vida útil da mesma. Outro fator importante é a alimentação que foi utilizada na parte eletrônica, recomenda-se sempre o uso de fontes de qualidade com circuito de proteção, qualquer gambiarra pode ser nociva à eletrônica.
  • Telescópio refrator / Objetivas fotográficas: o principal inimigo desta classe de equipamentos é a umidade, ambientes muito úmidos e com baixa taxa de manutenção tendem a se tornarem favoráveis ao surgimento de colônias de fungos sobre as lentes destes equipamentos, ataques mais severos de fungos podem danificar permanente o revestimento ótico (coating) das lentes. Este tipo de equipamento, em geral, não é tolerável a quedas ou pancadas; além disso não é o tipo de equipamento que o usuário comum precise desmontar com frequência, usuários curiosos em excesso, neste caso, podem representar um risco ao telescópio.

  • Telescópio refletor: nesta classe a maior preocupação é o estado dos espelhos, principalmente do espelho primário, pois a superfície refletora de um espelho é muito mais suscetível a riscos, manchas e danos. Telescópios newtonianos possuem o tubo aberto e por isso acumulam mais sujeira no primário, a limpeza somente deve ser efetuada se o executor da tarefa possuir o devido conhecimento do que está fazendo e fazer com muito zelo. Além disso, a camada refletora se desgasta com o tempo e exige a realuminização periódica, refletores muito velhos podem estar com esta camada deteriorada exigindo a realuminização.

  • Telescópio catadióptrico: exige praticamente os mesmos cuidados de um telescópio refrator, pois o tubo é fechado e minimiza o acúmulo de sujeira no primário, no entanto a placa corretora pode acumular fungos. Esta mesma placa corretora merece muita atenção, caso esteja danificada é praticamente impossível substituí-la.

  • Câmeras: este é um dos itens mais complicados de se comprar usado, principalmente se a câmera for refrigerada. Câmeras astronômicas refrigeradas exigem certos cuidados para não se danificarem pelo mau uso; um dispositivo como este se usado incorretamente pode sofrer danos irreversíveis. Além disso, dispositivos eletrônicos possuem vida útil reduzida, um telescópio de boa qualidade poderá ser utilizado por décadas, enquanto que dispositivos eletrônicos tendem a apresentar problemas e ficarem defasados tecnologicamente.

  • Filtros, corretores, redutores e similares: necessitam basicamente dos mesmos cuidados dispensados aos telescópios refratores, principalmente no que se refere a limpeza e armazenagem, sendo a umidade o pior inimigo.

Neste aspecto, conhecer o dono anterior do equipamento já te dará uma boa ideia sobre o estado do mesmo, um usuário experiente e zeloso manterá os equipamentos com os devidos cuidados necessários à sua preservação; já um usuário menos experiente, ou mesmo que experiente seja negligente, possivelmente terá um equipamento fora das melhores condições. Portanto, consulte quem é o dono anterior do equipamento que pretende comprar e tente saber a forma como foi usado e armazenado.

Ao escrever o artigo percebi que o mesmo estava ficando muito extenso, mas não há como resumí-lo sem perder informações pertinentes, diante disso resolvi dividí-lo em duas partes. A segunda etapa conterá os seguintes aspectos da compra: Tempo de usoPreço Cosmética.


Abraços e até a próxima!


domingo, 12 de agosto de 2018

Bilhões e bilhões de estrelas - NGC 6520

NGC 6520
"Você já teve um dia em que parecia que uma nuvem escura estava te seguindo? Para o aglomerado aberto de estrelas NGC 6520, todos os dias é assim." [Fonte: APOD]

A imagem que trago desta vez é bem peculiar, existem vários elementos interessantes que consignam à foto uma beleza estimulante. Há tempos este alvo constava na minha lista de objetos a serem fotografados, principalmente por se tratar de algo bem particular: uma pequena nuvem escura navegando pelo bojo da Via Láctea acompanhado de um jovem aglomerado de estrelas.

No centro, à esquerda, temos o aglomerado aberto de estrelas NGC 6520, que é formado por jovens estrelas azuis; à direita temos a nuvem molecular Barnard 86, que também pode ser denominada como uma nebulosa de absorção (nebulosa escura) pois ela absorve a luz das estrelas de fundo. Possivelmente as estrelas do aglomerado se originaram da nuvem molecular Barnard 86, sendo esta nebulosa a fornecedora do material necessário para a formação de novas estrelas.
Destaque para o par cósmico (região central da foto).
Além disso, esta foto traduz em estrelas o celebrado título da obra de Carl Sagan, Billions and Billions: Thoughts on Life and Death at the Brink of the Millennium (Tradução: Bilhões e Bilhões: Pensamentos sobre Vida e Morte à Beira do Milênio). Cada minúsculo ponto no plano de fundo desta astrofotografia é uma estrela como o nosso Sol, porém muito mais distante e que compõe o centro galático.

#Dados do objeto:
Nome: ********
Catálogo: NGC 6520
Descrição: aglomerado aberto
Constelação: Sagittarius
Magnitude Visual: +7.59
Tamanho Aparente: 2.0 arcmin.
Dist. Estimada: 6200 anos-luz
Fonte: SkySafari 4 Plus app
Localização de NGC 6520 na constelação Sagittarius.
#Equipamento:
Telescópio: Refrator Orion ED80
Distância Focal: 600mm
Câmera: QHY163M
Montagem: SkyWatcher HEQ5 Pro
Filtros: LRGB Optolong
Guiagem: buscadora Meade 8x50 com câmera Starlight Superstar mono
Acessórios: aplanador de campo Orion; roda de filtros manual StarGuider

#Dados da captura:
Luminância (filtro L): 38 quadros de 180s Bin 1x1 -10° C
Vermelho (filtro R): 15 quadros de 120s Bin 2x2 -10° C
Verde (filtro G): 14 quadros de 120s Bin 2x2 -10° C
Azul (filtro B): 16 quadros de 120s Bin 2x2 -10° C
Exp. Total: 3,4 horas
Calibração: darks
Local: Silvânia / Goiás / Brasil
Data: 18 de julho de 2.018
Escala bortle: 4-5
Programas para aquisição: APT; EQMod; PHD 2
Programas para processamento: PixInsight e Photoshop CS6

#Image Plate Solver:
Center (RA, hms): 18h 03m 16.614s
Center (Dec, dms): -27° 54' 57.217"
Size: 1.52 x 1.12 deg
Radius: 0.943 deg
Pixel scale: 1.32 arcsec/pixel*
Orientation: Up is 356 degrees E of N
*Esta escala considera a imagem em resolução total (4150 x 3050 pixels).


#Melhor resolução:
Flickr: resolução 1920 x 1411

Abraços!

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Retrospectiva 2017 - EVENTOS

Visita ao meu amigo Avaní Soares no Observatório Parsec.
Início de 2018 e farei a minha primeira retrospectiva astronômica, sem dúvida alguma o ano de 2017 foi singular na minha jornada, não apenas pela produtividade, mas também pela carga de aprendizagem e pelas experiências maravilhosas. Citarei algumas delas:

JANEIRO

No início do ano consegui concluir a construção da Toto Mount, uma montagem equatorial germânica motorizada e computadorizada construída em casa, esta montagem é capaz de fazer astrofotografia de longa exposição tal como uma montagem industrializada. Este projeto foi um dos mais gratificantes para mim e é a materialização de vários anos de estudos e dedicação. Provavelmente em 2018 teremos uma versão maior da montagem e com maior capacidade de carga!
Toto Mount
MARÇO

Quando iniciei em 2013 adquiri uma DSLR Canon 450D usada no Mercado Livre, foram 4 anos de estudos e registros com ela, então em Março de 2017 esta mesma câmera passou por uma grande transformação em minhas mãos, a desmontei toda e refrigerei o sensor, foi uma grande vitória na batalha contra o ruído térmico inerente a este tipo de câmera e o projeto foi batizado por mim de FRIDAY
Foto da Friday
MAIO

Maio foi muito especial, levei a minha amada para Gramado/RS e aproveitei para esticar a viagem até Canoas/RS e Presidente Lucena/RS, nestas duas cidades conheci velhos amigos virtuais e muito queridos: Avaní Soares e Rafael Compassi.
Delberson (esq.), Rafael (centro) e Avaní (dir.)
JUNHO

Em junho ganhei o meu primeiro AAPOD² com uma imagem da Running Chicken Nebula - IC 2944:

Ainda em junho houve uma grande transformação no meu conjunto de equipamentos para astrofotografia, pois surgiu a oportunidade de adquirir uma câmera própria para fotografia celeste e que dispensa toda e qualquer tipo de modificação, migrando definitivamente para um novo tipo de astrofotografia com a QHY163M adquirida na loja www.Tellescopio.com.br
QHY163M
Além da QHY163M, veio também a ASI174MM, filtros e roda de filtros:

JULHO

Este mês foi muito especial e começou de forma muito agradável porque ministrei uma palestra sobre astrofotografia no Planetário Digital de Anápolis/GO e estive na presença de pessoas incríveis, oportunidade na qual fiz várias novas amizades também.


Julho é um mês especial para os astrofotógrafos brasileiros porque é nele que se realiza o EBA (Encontro Brasileiro de Astrofotografia). Participar deste evento sempre foi um objetivo, afinal é um momento no qual é possível estar perto das grandes personalidades da astrofotografia brasileira, sendo quase impossível enumerar todos os talentos que lá estavam presentes. A foto oficial fala por si mesma:
X EBA em 2017
DEZEMBRO

No fim do ano ocorreu-me uma grande surpresa, pois através de uma análise computacional realizada pelo grande Paulo Cacella com um sistema de sua autoria, redescobrimos uma estrela supernova em uma das minhas astrofotografias tiradas em 2017, trata-se da supernova 2017bzc na galáxia NGC7552. Pena que ela já havia sido catalogada por outro observador, mas ainda assim foi um grande feito registrá-la e encontrá-la.
Registro de uma Supernova
Enfim, a intenção era fazer um resumo do ano contendo os eventos e as astrofotografias de 2017, entretanto a publicação foi ficando bem mais longa do que o esperado (eu nem imaginava que tinha tanta coisa). Por isso resolvi dividir em duas etapas, esta com os eventos e a próxima somente com as astrofotografias.

Abraços,
Delberson.